Tenho Qualquer Coisa De Árvore é uma selecta de poetas de Léon. Quer dizer: de uma série de autores, selecciona alguns deles e recolhe algumas das suas criações. Éditos e inéditos.
A tarefa de apresentar esta selecta levantou-me algumas dificuldades. Desde logo, a questão da língua. Mas como é uma edição bilingue, o problema não chegou verdadeiramente a sê-lo. Como é sabido, quando uma língua que não é a nossa julgamos ler e compreender, acontece que as suas subtilezas nos escapem com mais facilidade do que quando dela nos acercamos com o cuidado próprio de quem está em território que não é o seu. Pior do que isso, só o engano e o erro que resultam da familiaridade com que convivemos com a nossa. Mas sendo a tradução de Alberto Augusto Miranda, e conhecendo a exigência e rigor que ele põe nestas coisas da literatura, fica-se-me o espírito sossegado.
Dos poetas da selecta – tirando os que contam já com a projecção do nome e a multiplicação de referências – o mesmo cuidado se impõe a quem deles não se quer ficar apenas pela leitura, tomando como certa a complacência generosa de quem me ouve ou lê. Também aqui, a tarefa é-nos facilitada pelas notas bio-bliográficas que a organizadora da selecta, Silvia Zayas, achou por bem colocar sobre cada um dos autores.
Quanto ao que nas notas bio-bibliográficas não está – e nunca poderia estar –, encontrá-lo-emos nos poemas que são, em boa verdade, a única coisa realmente importante a saber acerca dos poetas. É claro que a obrigação de falar sobre um livro, um autor ou, como é o caso, sobre uma selecta de autores, obriga a investigação sobre os poetas e suas obras.
Ainda para mais, como é o caso, quando alguns dos poetas conhecia apenas do prazer que dava a leitura deles. Mas também nada há de extraordinário nisto, já que se da leitura dos poemas de Tenho Qualquer Coisa de Árvore resultar prazer e gosto, a mais o leitor não é obrigado e dão-se os poemas por realizados e os poetas por consagrados.
Outro assunto que costuma provocar polémica, no que respeita às antologias e selectas, é a questão de se saber se os autores nelas inseridos são representativos de uma época ou de uma corrente artístico-literária. A dificuldade aumenta, quando se cuida de averiguar se os poemas presentes recolhem o que de melhor os poetas fizeram. As agruras que aos organizadores de antologias e selectas advêm das sensibilidades feridas de autores que, por não constarem, se acham injustiçados, ou daqueles que constando dão por menos bem achados os poemas que os representam, merecem um capítulo à parte em qualquer história periodológica da Literatura e dos favores e desfavores que a actividade editorial reserva a uns e a outros. O caso é de tal modo melindroso, que se perdoará aos organizadores de tão temerária tarefa, se nas apresentações públicas das obras ficarem perto da porta de saída, para, conforme o desenrolar do evento, decidirem ou não escapulir-se.
São treze os poetas recolhidos nesta selecta. Seis deles nasceram na década de 50: Aldo Sanz (1950), Miguel Suárez (1951), Ildefonso Rodríguez (1952), José Puerto (1953), Juan Carlos Mestre e Tomás Sanchez Santiago (1957). Victor Díez e Eloisa Otero na década de sessenta, 1962 esta, 1968 aquele. Da década de 70 temos Rubén Mielgo (1977) e a organizadora da selecta, Silvia Zayas (1978). Antonio Gamoneda nasceu na década de 30, em 1934. Nos extremos etários temos Gaspar Gómez, de 1927, e Jorge Pascual, de 1981. Temos, portanto, nesta selecta, que a maior parte dos seus autores viveram o franquismo, enquanto que três deles conhecem apenas o modo de vida democrático. Por seu lado, Gaspar Gómez e António Gamoneda são os únicos poetas que têm memória de um dos momentos mais trágicos da história de Espanha: a Guerra Civil.
Recolher é acolher. A dispersão é aqui o ponto de partida. Começo que, pela actividade mesma do recolher, se procura de algum modo superar pela compreensão do que é comum, do que junta, do que agrega. Recolher, acolher, colher. O acolhimento que está em questão é o recolhimento de vozes poéticas que partilham entre si a pertença a um território, simultaneamente real e ficcional. Não é que esta selecta tenha um objecto ou um tema. Nem assunto comum se poderá nela encontrar. Se o incomum for a pedra de toque da dispersão, Tenho Qualquer Coisa De Árvore cumpre a incomunidade de que Alberto Augusto Miranda é o rosto mais conhecido. É certo que o livro nos indica que se trata de uma selecta de poetas de Léon. De ou em Léon. O lugar do qual os poetas se diz que são, ou estão, seria o elemento unificador, ajuntativo. No entanto, Léon não se confunde, nos poetas e poemas que estão dentro, com um qualquer espaço com fronteira fixa, delimitadora. Não é que o estritamente geográfico, o local ou a sua circunscrição poético-ficcional tenha em si algo de mal ou suscitador de menosprezo. A sentença segundo a qual quanto mais regional mais universal contém em si a evidência de uma verdade que se impõe por si mesma. O (con)fim revela-se muitas vezes como sem-fim.
Por maioria de razão, tratando-se de poetas. De Léon, é verdade, mas – e a leitura dos poemas mostra isso à saciedade –, que nada têm a ver com um qualquer regionalismo redutor. A haver território, no qual os poetas de Tenho Qualquer Coisa De Árvore se movimentam, é o da linguagem. E é no interior desta que poderemos encontrar critério justificativo para a selecção feita por Silvia Zayas.
A imaginação, enquanto faculdade de fabricar imagens, dá a ver novos mundos, novas possibilidades. A linguagem, a linguagem poética, apresenta-se, para usarmos a poesia de Juan Carlos Mestre como exemplo, como a impossível casa em que o visível e o invisível, o conhecido e o desconhecido, o diverso e a unidade, confluem, para, pela imaginação, se subsumirem num anseio de pureza. A palavra poética, o que por ela é nomeado e também o que nela está destinado à errância do sentido, assume por inteiro o que nunca deixou de ser uma das suas marcas: a emoção e a sensibilidade.
Aquém e além do que diz, condenada a estar sempre em atraso em relação à realidade, à palavra exige-se a impossibilidade de relatar a vida e a morte. Cientes do fracasso que inevitavelmente sucederia a tamanha pretensão, os poetas de Tenho Qualquer Coisa De Árvore convivem bem com a inactualidade da palavra poética. Tomando de empréstimo a epígrafe atribuída ao poeta norte-americano Robert Duncan – que cobre o livro de Aldo Sanz, Nada na Boca, de 2004 – «um poema é um acontecimento, não o registo de um acontecimento», resulta claro que nestes poetas leoneses a criação poética recentra-se na linguagem ela-mesma. Também para José Luis Puerto, a inactualidade e com isso a resistência à tirania do acontecimento – aliadas a uma obsessão pelo tempo e pela memória – definem a natureza do trabalho poético. A poesia é aqui a manifestação da palavra fundadora, originária.
Se calha outras dimensões dela se acercarem ou de com ela estabelecerem tráfico, é por um excesso de inocência. Nisto a poesia tem-se dado frequentemente mal. Abeirar-se do redemoinho social, ou da vertiginosa tentação do confessionalismo psicológico, implica, a mais das vezes, o seu esgotamento. Recolher-se à linguagem e às suas virtualidades criativas é o horizonte no qual estes poetas constroem o domicílio do seu fazer poético. Como gosta de dizer Tomás Sanchez Santiago, apenas a si mesma a linguagem deve obediência. A irremediável subjectividade da poesia, que Gamoneda muitas vezes refere, não transporta necessariamente consigo a exibição de particularismos que se querem mais ou menos excêntricos da «vida psicológica» ou das circunstâncias sociais ou pessoais em que nos envolvemos ou que nos envolvem.
Expor-se, pelo e no poema, nunca será mais do que expressão da nefasta tentação de impor-se. Realismo às avessas, Gamoneda detectaria aí um reaccionarismo, quer ele seja psicológico, quer seja social. Por isso, o poeta de Cecília e outros Poemas aprecia convocar o oximoro de S. João da Cruz, «não saber sabendo».
A indefinição está na própria origem do poema. Não definia Paul Valéry o poema como uma hesitação entre o som e o sentido? Mesmo quando a poesia se dedica a abolir o que nela é canto, trata-se ainda de canto abolido.
Inesperadamente, ou nem tanto, o verso surge da musicalidade que as palavras buscam ao encadear-se. O sentido, arredio mesmo de quem dele se faz seu oficiante, desdobra-se e desmultiplica-se pela indefinição que pertence à própria natureza das palavras. Quer falemos do verso que abre «A Descrição da Mentira», de António Gamoneda («O óxido pousou sobre a minha língua como o sabor de um desaparecimento»), quer falemos das 40 «Posições» que Silvia Zayas coreograficamente expõe, ou ainda do paralelismo no «Cavalo Morto», de Juan Carlos Mestre, o poema faz-se pelo encantamento que produz
Conscientes da poética, avisados da saturação a que a linguagem está sujeita num mundo globalmente mediatizado, cientes da irreprimível tendência para a de-limitação em correntes, escolas ou grupos, os poetas desta selecta revelam uma aberta resistência à confinação poético- literária.
Por outro lado, a língua poética tem uma história, uma tradição. A linguagem, melhor, o que nela e por ela acontece, é, em grande medida, a circunstância em que o poeta vive e da qual o poema emerge. A famosa asserção de Ortega Y Gasset, segundo a qual somos o que somos mais a nossa circunstância, exige que nesta não se veja apenas a factualidade da existência, a sua dimensão estritamente material, mas também a sua dimensão simbólica. As afinidades, electivas ou não, constituem-se, deste modo, como um mapa que permite rastrear os percursos que o fazer poético vai construindo. É assim que a bem conhecida desafecção de Gamoneda pela poesia social e o seu distanciamento crítico face à chamada «Geração de 50», ou o assumido compromisso que a poesia de Ildefonso Rodríguez estabelece com a música e com um certo imaginário surrealista, permitem-nos dizer – acreditando que os outros poetas da selecta não desprezariam esta sentença – que estes poetas leoneses se decidem resolutivamente por uma abordagem pessoal e individualizada da criação poética.
O qualquer coisa que está no título da selecta, aquilo que não se diz a propósito da árvore é, precisamente, a linguagem poética. Se na árvore temos que ver a figuração de uma profundidade que se lança para o alto, também nestes poetas a língua poética irradia a intensidez da riquíssima tradição poética espanhola.
Com mais ou menos pendor metafórico, com maior ou menor intensidade imagética, mais sensíveis uns ao inesperado do jogo vocabular, e mais dados à indagação filosófica outros, os poetas de Tenho Qualquer Coisa de Árvore parecem assumir a seriedade criativa traduzida num verso de Gaspar Moisés Gómez, segundo o qual «não vale a pena sobreviver a um poema desastroso».
Contrair, no verso limpo, a sensibilidade e o entendimento, a emoção e a inteligência; extrair, das infinitas possibilidades que a linguagem encerra, a palavra justa, é o ofício a que o poeta está condenado. Nesta tarefa coloca todas as suas energias. Abstrair-se desta possessão resulta, a mais das vezes, numa distraição. Tudo indica que, nos poetas de Tenho Qualquer Coisa De Árvore, a uma poesia da experiência, o trabalho da e na linguagem se configura como uma experiência da poesia. O essencial reivindica assim o seu lugar. Por isso é que manifestações como as d’ Os Dias Da Criação são cada vez mais felizes epifanias, que só a arte parece ainda ser capaz de convocar.
Fernando Martinho Guimarães
Ponta Delgada
Setembro de 2007