concha rousia com antónio cabral
Morreu o António. Estas duas palavras abondavam para comunicar uma notícia nas comunidades quando o mundo estava desenhado à medida das pessoas; como muito se alguém duvidava, por não ter certeza de qual António de todos os Antónios tinha que ser o falecido, perguntava: “Qual, o do Penedo?” “Pois é claro mulher, qual ia ser...?!”
Mas desde que os seres humanos conseguiram construir lugares para morar com uma imensidão de gente mas ao mesmo tempo viver no anonimato, um pode chamar-se António, ou Luis, ou Rosalinda, ou Jennifer, ou Petrónio... e morar a escassos metros de dúzias de pessoas, mesmo dividindo prédio ou andar, até, e pode morrer e seguir anónimo enquanto o cheiro da morte não o delate; depois vem a policia com suas perguntas... alguns dirão qualquer cousa do aspecto da pessoa, muitos, a mor parte deles, não será capaz de lembrar como se chamava esse anónimo.
Neste mundo, neste novo mundo, que mata a gente antes de ela ter morrido realmente, resulta cada vez mais difícil dizer o nome de alguém e que todos saibam quem é... Bom, António Cabral, o maior cantor do Douro, como se tem dito, morreu, e hoje em Vila Real todo o mundo sabe quem ele é, como o sabem no Porto, e em Braga, e em Lisboa, e em Compostela, e em Guimarães, e em Trás-os-Montes, e em Corcubiom... Porque ele, defensor da comunidade, conseguiu transpassar esse espirito para diante mesmo da sua própria existência.
Conheci a esse homem há apenas dous meses em Vilar-Boticas, nos Dias da Criação; ele abriu aqueles encontros, homem decidido; não se puderam ver as imagens que ele trazia para o laptop nem suas folhas transparentes, e ele lamentou não as poder mostrar; e eu lamentei também não as ter visto, porque a julgar polas palavras dele as imagens tinham que ser de um grandíssimo valor. Falou, eu nem me importei de parecer uma escolar; tirei uma folha e um lápis e anotei aquelas palavras, que embora eu as sabia, não as queria esquecer mais:
“Só há cultura se há comunidade, isso nós da consciência de identidade, e por tanto a comunidade deve ser preservada custe o que custar”
Falou do jogo tradicional, de como surge, de sua funcão, seu tom era distendido, agradável, próximo, carinhoso... Falou do seu prazer em visitar a Galiza, onde os jogos tradicionais estão bem valorizados, de seus amigos cá, de brincar com as crianças, de ser criança... de Ser. Logo das conferencias o acaso fez com que ele e Alzira, sua companheira, junto com o Nelson, a Clara do Porto e eu estivéssemos sentados à mesma mesa num almoço com carne barrosã; concordamos com que aquela é a melhor carne do mundo, e o vinho do Douro... e o recital na tarde, e a importância dos convívios, e de colaborar nesta luta contra a morte das culturas numa Europa preocupada quase só pola economia; intercambiamos e-mails... E eu alegro-me, alegro-me imenso de poder abraçar esta tristeza que hoje se abateu sobre mim quando a Clara do Porto me contactou e me disse: morreu o António.
Concha Rousia
Compostela, 26, outubro, 2007

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