Sem Umbigo
Nós, sim, somos exuberantes, tivemos raiz e está identificada, controlada e protegida. Nós temos umbigo, sim, sempre connosco, e muitas vezes nem nos lembramos de que sobrevivemos em volta desse ponto inicial, que veio doutro ponto. Nalguns, o umbigo é uma espiral que leva à vertigem; noutros, é um sinal de origem nebulosa que vale a pena esquecer, ou lembrar, mas sem lhe dar o estatuto de buraco-quase-negro onde a vida é não se sabe o quê. O umbigo é, também, outras coisas, miudinhas umas; outras de aparato. Não damos descanso ao umbigo. Algumas vezes fica um cotãozinho, uma lanugem breve que logo deitamos fora se a descobrimos. O cotão era uma cota grande que os antigos cavaleiros medievos usavam por imperativo dos golpes de batalha. As argolinhas de metal entrelaçadas faziam a malha protectora e era mais ou menos a sorte dos guerreiros. Também eles se fizeram acompanhar dos seus umbigos nas campanhas da História. As épocas são marés de umbigos também eles entrelaçados, mas secretamente, formando um tecido de singularidades que vai mantendo, precisamente, a História que vamos sendo. O umbigo tem razões e é fácil detectá-las no jogo de palavras que muitas vezes se usa para expressar uma raiva ou uma paixão. Há homens que põem o sexo no umbigo das mulheres à espera de um milagre. Não se trata de santa ignorância, mas de esperança absurda. Aquilo é ponto central e ali ficam, às escondidas do tempo, à espera da multiplicação do ser, isto, claro, se o umbigo tiver um fundo mínimo que permita o depósito e a tal esperança. Há casos assim em que o homem acredita e a mulher aceita. Não havendo, depois, o regozijo por um ventre aumentado, de um novo umbigo a nascer, resta-lhes pensar que o umbigo possa ser isso mesmo e não outra coisa e confiar na voz da ciência - onde a Natureza esconde a ciência pode iluminar - que lhes dirá onde, em que recanto absorvente, poderão tentar a reprodução. O umbigo serve, pois, nalguns casos, para enganar, sobretudo quando é deprimido e não saliente. Muitas artes, muitos objectos de arte, vivem do amor ao umbigo. Não há nada a fazer. Há quem se enerve e se mascare de vigilante-reparador de uma certa arte degenerada, “o monstruoso fruto da insanidade”, dizia um chefe nazi, em 1937. Mas não quero, agora, seguir para trás, para a vergonha histórica. Adiante com o que pretendo dizer mais à frente. À semelhança de alguns corações, há umbigos que são canibais. Na sua expressão simbólica, claro, porque o que vai indo escrito por aqui tem tanta ingenuidade e querença no passatempo que isto é, que não faria sentido – antes seria uma tolice – pretender afirmar a existência de umbigos devoradores de outros, na exacta afirmação de umbigos comilões. Há, portanto, umbigos canibais e, habitualmente, dispostos a consagração. Na política, por exemplo – que é território fértil para canibalismos vários – assistimos com frequência à voragem de muitos umbigos. Os actos já não ocorrem apenas sazonalmente, em períodos eleitorais. É onda contínua. E nas paixões dos dias, o canibalismo umbiguista é tão parecido à mesma prática do coração, que muitas vezes não sabemos qual é o responsável. Damo-nos conta de que o outro, esse alguém diante de nós, já não tem com que se afirmar ou afirmar o seu amor, e nós, cheiinhos da sua presença amada, não sabemos por que fio invisível fomos capazes de o absorver, se pelo umbigo, se pelo coração. Há também a razão. Nota-se que paira por aqui ao modo do céu sobre a terra. Sem ela, não sei bem onde buscaria os vínculos de tudo isto, mas adiante, porque me atraso no que devo dizer. E o que digo é que há neste mundo criaturas sem umbigo. Não são os anjos. Esses são fáceis de admitir, mas têm estatuto que nos escapa e, atendendo à minha incompetência em Angelologia, qualquer evocação não andaria longe de alguma bazófia. Deixo, então, na reserva – para outras falas - esses contingentes de inumeráveis seres celestes, alados e não, e vou-me à moradia das criaturas sem umbigo que nesta hora decido relembrar e celebrar. Simplesmente isto: todos os habitantes dos lugares imaginários, todas as criaturas sem identidade nas praças da nossa vidinha costumeira, todos os activos da ficção, teatro, cinema ou literatura, as personagens... não têm umbigo. Emanações de uma vontade criadora, réplicas virtuais, as personagens – mesmo as que se deixam revelar pela graça dos comediantes ou no íntimo dos leitores – não trazem a cicatriz de um nascimento humano e original, de nada servindo procurar o núcleo germinador das suas formas, e, portanto, serão sempre semelhantes a deuses e heróis. Qualquer personagem, de Hamlet a um quase anónimo contemporâneo, não cumpre os regulamentos mortais da vida. As personagens assumem hierarquias de presença – com maior ou menor assiduidade no pensamento dos públicos – e algumas podem até ser confundidas com personalidades históricas. Tão acostumados estamos à sua permanência, que acredito que haja quem possa dizer que Édipo, no seu reinado tão nobre quanto infeliz, andou e cegou, de facto, por aqui. A condição dos-sem-umbigo traz o assunto das imortalidades. Já se sabe que as personagens sobrevivem aos autores e não se espera que um dia se cansem de não morrer, como aconteceu a Quíron, o bom centauro que acabou por receber a mortalidade de Prometeu. Convidados à mesa dos heróis, estarão sempre dispostos aos universos visíveis e invisíveis, prontos à companhia. Esta honra, da qual somos responsáveis, irá, pois, manter-se até que um festival galáctico altere a paisagem. Sabemos mais ou menos do futuro abandono do sol, e, mais tarde, da fritura cósmica. Nessa altura, tanto fará haver umbigo como não. Até lá, haverá ainda muito império. E novas personagens.
Abel Neves
Boticas, Setembro de 2007

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