Combater desertificação através da cultura
Com pouco mais de cem moradores, a aldeia de Vilar, em Boticas, é como a maioria das pequenas localidades transmontanas tem muitos cães e galinhas a vaguear pela rua, muitos idosos, poucos jovens e menos crianças ainda. Mas, ontem, em Vilar não era assim. No pequeno centro da aldeia, cantos e ruas estavam apinhados de carros. \"Nunca assim vi tanto carro! Só em dias de casamentos grandes!\". A \"invasão\" é, no entanto, bem-vinda. \"Nós o que queremos é ver muita gente, para poucos já chegámos nós\", garantia a moradora Maria Marques, de 71 anos. Ontem e hoje, a aldeia de Vilar é palco, pela segunda vez consecutiva, de \"Os dias da criação\", uma iniciativa do movimento artístico Incomunidade e da casa de turismo rural local \"Casa de Eira Longa\".O objectivo do evento é ambicioso combater a desertificação da região, através da cultura. \"É preciso criar empregos, mas é também preciso criar dinâmicas culturais capazes de fixar população. A paisagem só não chega. Ao fim de três dias as pessoas já não sabem o que fazer\", defende Alberto Miranda, promotor da iniciativa que tem, nesta edição, uma matriz transmontano-leonesa.No entanto, nos cerca de 160 artistas das mais variadas áreas, estão presentes criadores de outros pontos de Portugal e até da Venezuela e de Cuba. Ontem, além da inauguração de uma exposição de artistas visuais de Léon (Espanha) e Trás-os-Montes, durante a tarde, foram apresentadas, pela primeira vez, cinco curtas-metragens de autores lusos e espanhóis. Entre as estreias está a do conhecido cineasta português Pedro Sena Nunes. O lançamento de uma colectânea de poemas em português e castelhano foi outras das iniciativas.Hoje, logo pela manhã, serão apresentados 14 documentários realizados por estudantes da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que, em Março, andaram de câmara em punho pelo Barroso. \"Os actores são gente daqui e de outras aldeias. Quisemos envolver a comunidade quanto mais não seja para que ela não morra ao nível da imagem\", resumiu Alberto Miranda, há 30 anos em Lisboa, mas de origem transmontana. Amanhã, Vilar regressará à pacatez de sempre.
Margarida Luzio in JN, 2007-09-24

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